Não luteis contra as distrações

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“A distração é a vida que quer ser rezada”

Grande parte das pessoas que rezam são assediadas por constantes distrações: pensamentos, imagens, recordações, sentimentos, cenas, devaneios, palavras, fatos, pessoas, preocupações…

Tudo isto lhes “distrai”, isto é, afasta-lhes dos conteúdos mentais ou afetivos de sua oração ou obscurece o sentimento da presença de Deus.

Diante destas sutis ou claras ameaças, os orantes costumam empregar sua energia em afastá-las; isto significa grande esforço e fadiga. Na prática, a oração se converte num campo de batalha, tornando-se um monólogo heróico e um sentimento de impotência e vazio.

As distrações são inevitáveis, e muitas pessoas pensam que constituem um obstáculo para a qualidade da sua oração. É preciso saber identificá-las, canalizá-las e dar-lhes a importância que realmente tem.

“Assim como não podemos deter o movimento do céu, tampouco podemos deter nosso pensamento” (S. Tereza).

Nossa própria realidade nos ensina a nos relacionar com Deus e a rezar, desde que levemos a realidade a sério. Muitas das coisas que parecem “distrações” são oportunidades para entrar em diálogo com o Senhor; muitas das atividades que necessariamente consomem nosso tempo são oração em ação.

Quem reza mas se “distrai” com preocupações, lembranças, imagens… não perde o contato com Deus.

Quem procura pensar em Deus mas, de repente, tem a mente cheia de cenas e sons da própria realidade dificilmente se desvia da oração.

E quem tem a concentração em Deus interrompida pelas exigências da vida ou pelos problemas cotidianos não mostra desrespeito quando atende a essas intromissões.

Para o orante é simplesmente impossível separar o mundo de sua oração, ou isolar sua oração dos acontecimentos da história.

As distrações durante a oração servem muitas vezes para revelar aonde nosso coração realmente nos leva.

Como tal, revelam muita coisa sobre a pessoa que somos.

Oriundas, como elas são, dos recantos de nossas mentes e das rotinas nas quais vivemos, as distrações são, certamente, confirmação de nosso “enraizamento” no mundo, nas preocupações cotidianas, em nossa corporalidade, em nossos desejos…

 

Que são as distrações?

São uma mensagem de nosso inconsciente, de nosso corpo, de nosso eu, uma recordação, algo incompleto, uma expectativa do futuro, um temor, uma emoção relativamente importante… São um conteúdo de vida que nos pertence.

 

Qual a finalidade destas mensagens?

Revelar-nos alguma necessidade, algum desejo, atrair a atenção sobre algo, introduzir em nossa consciência dados que podem enriquecer-nos…

Na oração com conteúdos mentais ou afetivos a distração tende a substituir um conteúdo por outro não escolhido conscientemente, mas talvez “interessante”, sob algum aspecto, para nós mesmos.

 

Que fazer com estas mensagens?

  1. A reação pessoal é lutar contra elas, sem cair na conta que essas mensagens “sou eu mesmo”.

Antes de tudo, devo dar-me conta da mensagem sem dialogar com ela. Isto quer dizer: a atitude primeira é despertar a consciência para essa mensagem. “Neste momento em que estou rezando, me dou conta de  que aparece um novo dado no espaço tranquilo de minha oração”.

Sou consciente de dois planos: meu nível de atenção meditativa e da mensagem nova.

 “Escutar” a mensagem não significa colocar minha energia a seu serviço. Se a mensagem entra no campo de minha atenção com a possibilidade de ser “distrativa”, acolherei seu conteúdo sem marchar atrás dela. É  como se dissesse interiormente: “Agora que estou rezando, me dou conta do que tenho que fazer amanhã”. 

  1. Se luto contra a distração (e sua mensagem), posso afastá-la de minha atenção, embora o mais frequente é que reapareça com renovada força para cumprir sua missão.

A luta mesma é mais distrativa que a  mensagem.

Para manter minha concentração, me afasto da oração.

O esforço que emprego em lutar me tira da “tranquila concentração” na qual estava cultivando a oração. A luta contra a mensagem é distrativa porque afasta, com duvidoso êxito, a mensagem, mas, certamente, me  descentro, isto é, perco o ritmo tranquilo da oração.

Não lutar” não significa “consentir”;  simplesmente supõe não gastar energias com as quais se alimentaria a mesma distração.

Não lutar” é dar-me conta sem alterar-me, ser consciente da mensagem; é dizer-lhe: “Já sei que estás aí, te atenderei mais tarde”, sem perder a calma e prosseguir orando.

  1. Um caminho para manter a oração, depois de ter tomado consciência da distração, sem entrar nela, é voltar minha atenção para as “sensações físicas” ou para a “respiração”, como maneira de garantir o processo da oração. Minha atenção se fez consciente de uma recordação, um sentimento, uma imagem e agora dirigo a  mesma atenção para meu corpo que não deixou de orar com sua postura.

A respiração ou as sensações físicas são o caminho que me fazem consciente de meu desejo profundo, de minha presença orante.  Eu me faço presente ao melhor de mim mesmo.

Ao invés de golpear a distração,  o que faço é abraçar-me a mim mesmo e a tarefa prazerosa que neste momento estou vivendo: a oração.

Armar-se de paciência, não se inquietar e menos ainda desanimar, mas voltar à atitude fundamental de estar na presença amorosa de Deus. 

  1. Não fazer uma “leitura moralista” das distrações; elas brotam espontaneamente, sem o meu consentimento. Não tenho culpa. Devo acolhê-las, tomar “posse” delas e apresentá-las (oferecê-las) ao Senhor.
  2. Na oração “tudo acolho e tudo ofereço ao Senhor”.

“Não façais caso algum de pensamentos maus, torpes, sensuais, pouquidades ou tibiezas, quando são contra o vosso querer. Assim como não me tenho de salvar pelas boas obras dos anjos bons, não me tenho de condenar pelos maus pensamentos e fraquezas que os anjos maus, o mundo e a carne me representam”. (S. Inácio, 11 set. 1536, Epp. I 107-109)

“Se as preocupações cotidianas que entram de mansinho em nossos pensamentos enquanto tentamos nos concentrar nas “coisas de Deus” são, muitas vezes incorretamente, identificadas como distrações, então é igualmente verdade que às vezes as maiores distrações de todas são o céu, a eternidade e até Deus!
Deus se torna uma distração sempre que o separamos do mundo que Ele cria, redime e ama.
O céu se torna uma distração quando o separamos da profunda esperança que a humanidade tem do novo céu e da nova terra da promessa divina”. (William Reiser sj)