“A vivência daquilo que se entende como um chamado de Deus é de uma beleza tão grande que nos alimenta profundamente”: Pe. Jobson fala sobre vocação e espiritualidade inaciana

Por Rede Servir

Diretor do CIJ, em Fortaleza (CE), jesuíta compartilha sua experiência de discernimento e caminhada vocacional


No mês vocacional, a Rede Servir compartilha o testemunho do Pe. Jobson Ramos Teixeira, SJ, diretor do Centro MAGIS Inaciano da Juventude (CIJ), em Fortaleza (CE). Em entrevista, o jesuíta recorda o caminho que o levou à Companhia de Jesus, fala sobre como a espiritualidade inaciana sustenta sua vocação e reflete sobre o significado de ser “contemplativo na ação”.

Natural de Alenquer (PA), Pe. Jobson mudou-se para Manaus (AM) aos 12 anos. Foi ainda jovem que conheceu a Companhia de Jesus, a partir do contato com um noviciado próximo de sua casa. Em 2013, iniciou o processo de discernimento vocacional em Belém (PA) e, posteriormente, seguiu diferentes etapas de formação em Feira de Santana (BA), Belo Horizonte (MG), Boa Vista (RR) e Bogotá, na Colômbia.

Nesta conversa, ele também deixa uma mensagem aos jovens que hoje procuram discernir a voz de Deus: “não ter pressa, mas, quando for o momento certo, não ter medo”.

Como você percebeu o seu chamado para a vida sacerdotal e por que escolheu seguir esse caminho na Companhia de Jesus?

O meu chamado para a vida sacerdotal não foi um processo rápido, nem simples, nem aconteceu de forma mágica. Tudo foi acontecendo de forma processual. Desde a infância, eu sempre tive muito desejo, muito gosto de estar nos grupos, na Igreja, de participar de diversas ações e atividades.

Mas esse chamado foi sendo discernido já quando jovem, com a presença da Companhia de Jesus. Eu era muito presente no noviciado que havia em Manaus, então tinha bastante contato com os noviços e fui sentindo um certo desejo de ter alguma experiência, algo que passasse por esse modo de vida que eu via nos jesuítas lá em Manaus.

Então foi assim, algo lento, demorado, mas muito bonito, muito bem construído a partir da vivência com os noviços, com os padres e irmãos jesuítas e com a comunidade. Eu sinto que era a própria comunidade que ia me dizendo que eu tinha traços, que eu tinha jeito e que poderia colaborar, mas eu fui bastante resistente no início e, por isso, houve uma certa demora para o sim.

No início, eu sentia como uma demora; hoje, eu entendo que foi no tempo certo, no tempo de Deus, que as coisas foram mesmo sendo respondidas. E a Companhia de Jesus, na verdade, eu nem digo tanto que eu escolhi, eu sinto mais que fui escolhido, porque a minha área missionária lá em Manaus era da diocese e, depois, quando o padre, que era mais idoso, foi embora, a Companhia de Jesus assumiu.

Então eu fui entrando na dinâmica inaciana, fazendo as experiências a partir da espiritualidade inaciana. Então eu sinto que fui convidado, fui chamado, convocado para vivenciar essa formação e estar presente, assumir esse ministério a partir da Companhia de Jesus.

De que maneira a espiritualidade inaciana ajuda a sustentar e dar sentido à sua vocação no dia a dia?

A espiritualidade inaciana é a grande força que nos une, nos reúne, nos congrega, tanto jesuítas quanto leigos e leigas que nos acompanham, porque é nesse caminho inaciano que a gente vai encontrando a melhor forma de chegar a Deus, fazendo o caminho mais bonito para encontrá-Lo.

Sinto que, desde o princípio, quando tive as primeiras vivências com a Companhia, lá em Manaus, as nossas experiências já eram inacianas, mesmo que isso não fosse dito. Então, eu fazia e gostava desse modo de rezar, do modo de vivenciar a espiritualidade, mas eu não sabia que aquele era o modo inaciano.

Depois que eu entrei na Companhia, que fui estudar, fazer os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, fui percebendo que eu já vivenciava bastante na minha área missionária essa espiritualidade. Foi muito bonito perceber que isso foi nascendo desde muito antes de entrar na Companhia e que eu já era um leigo inaciano há bastante tempo.

Essa espiritualidade nos congrega e nos alimenta, porque a gente vive a partir de uma comunidade mais ampla, entre os companheiros, entre os leigos e leigas, que nos fortalecem. A gente vai vivendo essa experiência com Deus a partir de uma grande família.

Para você, o que significa ser “contemplativo na ação” e como essa marca inaciana se traduz no seu ministério e no serviço aos outros?

Acredito que ser contemplativo na ação é ter os olhos sempre muito atentos à realidade, seja no nosso dia a dia de trabalho, seja nos momentos mesmo de oração, de espiritualidade, ou em qualquer outra situação, em qualquer outro momento da vida; ter essa atenção sensorial para o mundo que nos circunda.

Estar atento a isso e entender que, em tudo isso que nos acontece, que nos cerca, que chega até nós ou tudo aquilo que a gente promove para as pessoas e grupos, tem algo de Deus. Nada disso está livre do que vem do amor de Deus que nos ama.

Então essas palavras são muito fortes para mim e eu tento colocar em prática no meu dia a dia, às vezes até mesmo nas situações que são mais incômodas, que nos tiram daquela zona de conforto.

Tento encontrar Deus naquele ambiente, naquelas pessoas, naquela situação difícil, bonita, agradável, para entender que dali pode sair algo bom, algo transformador, seja para a minha vida ou para a vida das pessoas que eu acompanho. Tento e busco ser cada vez mais contemplativo na ação, vivenciar essa mística inaciana, essa mística da nossa Igreja.

O que você diria a um jovem que hoje está tentando escutar a voz de Deus e discernir o próprio caminho?

Para um jovem que está tentando discernir essa escuta da voz de Deus, eu diria que tenha paciência, que nunca tenha pressa quando se trata de escutar a Deus. Digo isso no sentido de não ter pressa em querer responder de forma demasiado apressada, porque às vezes não é o tempo.

Escutar com atenção, degustar cada palavra, cada sentimento, como a própria espiritualidade nossa diz, “sentir e saborear” cada movimento, cada moção, que, a partir da oração, se entende que é o chamado e a voz de Deus. Os caminhos que Deus nos prepara são melhores e mais bonitos que os caminhos que nós mesmos preparamos.

Portanto, ter atenção, cuidado, não ter pressa e, quando for no momento certo, não ter medo, porque o medo nos impede de tomar decisões importantes e depois pode vir um arrependimento.

A vivência daquilo que se entende como um chamado de Deus é de uma beleza tão grande que nos alimenta profundamente. Qualquer coisa que achamos que vamos perder por dar uma resposta comprometedora, na verdade, não estamos perdendo; estamos ganhando diversas outras coisas que nem estavam no nosso horizonte e que passam a fazer parte da nossa vida de maneira muito bonita, muito agradável, porque realmente estavam no plano de Deus.