
Lia Andriani[1]
O caminho para uma nova qualidade de vida passa pela descida ao fundo do próprio poço. (Anselm Grün)
O ano mal começou e já estamos de volta ao nosso dia-a-dia, nossas idas e vindas ao trabalho, ainda que com gosto de encontros, viagens, prosas e “descanso”. Lentamente vamos sendo tragados por nossos afazeres, reuniões e tantas outras coisas dais quais não temos controle. E de repente, já estamos, de novo, num ritmo acelerado, numa “fazeção” sem fim. Mas, será que é possível transformar o lugar comum do nosso cotidiano rotineiro, convencional e repetitivo, carregado de desencanto, em lugar sagrado de encontro com o Senhor da Vida?
Na maioria das vezes, nossos cotidianos vão se reduzindo a um fazer tão normal e automático que acabamos por fazer coisas que não faríamos se pudéssemos tomar distância e refletir a respeito do que estamos fazendo. De repente, vamos vivendo uma quantidade de experiências rápidas, amontoadas, sem possibilidade de avaliação, e vamos perdendo, pouco a pouco, a história pessoal e comunitária.
Mas, as grandes histórias também são tecidas na trama da vida, no ritmo lento dos dias que vão passando com um jeito meio sem graça de ser. É no meio da vida que temos a possibilidade de tempos de silêncio, de rotinas inspiradas e de aprendizagens silenciosas.
Sim, é a “mística” que nos desperta da letargia do cotidiano. E despertos, descobriremos que o cotidiano guarda segredos, novidades, energias ocultas e forças criativas que sempre podem conferir novo sentido e brilho à vida. O Reino também se revela no pequeno, no anônimo, no despojamento.
É o cotidiano que nos prepara para as grandes decisões e é a nossa fidelidade a ele, que possibilita a transformação da realidade. O cotidiano abre espaço à ação do Espírito para que Ele nos expanda, nos alargue e nos impulsione em direção a uma vida nova.
Dessa maneira, encontrar a Deus no cotidiano significa que é preciso viver em um contexto vital no qual cada um se sinta estimulado a tomar decisões, a assumir responsabilidades, grandes e pequenas e a cuidar pessoalmente dos processos concretos da vida de cada dia porque, a vida cotidiana exige não apenas fidelidade, mas também amor, gratuidade. É o lugar que nos inspira a vivermos encontros com a marca da surpresa, da acolhida do diferente e do respeito ao outro.
E para você? Como é o seu cotidiano? Que espaços de pausa, silêncio e encontros consigo mesmo, em seu núcleo sagrado já estão agendados para o ano? Suas atividades diárias fazem parte do seu caminho para Deus? Você consegue perceber a presença de Deus nas suas rotinas diárias?
A realidade cotidiana é o lugar onde somos chamados a viver a espiritualidade cristã e a deixar-nos conduzir pelo mesmo Espírito que animou Jesus e o levou a inserir-se na trama humana e a assumir o risco da história. Ser cristão inserido no mundo, em meio às agitações cotidianas, é acima de tudo ter Jesus como modelo de vida: suas palavras, suas ações, seu modo de relacionar-se com o Pai e com os irmãos.
[1] Eliane Nunes Calfa Andriani (Lia Andriani) – Leiga, casada, graduada em Arte-Educação, Teologia, Pedagogia, especializada em Espiritualidade, Orientação Educacional e Orientação Espiritual Cristã. Acompanhante e Orientadora dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio há 30 anos, coordenadora da equipe do AEVI – Apoio aos Exercícios Virtuais Inacianos.