Pe. Paulo Lisbôa, SJ
Ultimamente, aqui no Brasil, fala-se muito em COP 30, já que o país vai sediar esta reunião internacional tão ligada à situação climática mundial. No próximo 16 de março, celebra-se em todos os continentes o Dia da Conscientização para as Mudanças Climáticas. Finalmente, não podemos esquecer que, neste ano de 2025, estamos há 10 anos da grande Encíclica ‘Laudato Si’, sobre o cuidado da ‘Casa Comum’, de 24 de maio de 2015.

Entre tantos outros motivos, basta os três citados acima para eu iniciar esta reflexão como matéria para sua participação penitencial do grande Jubileu 2025. Aliás, tenho em mente em cada nova crônica deste ano abrir um espaço, ao final, para apresentar algumas manchetes sobre a caminhada jubilar. E por uma feliz ‘teocidência’ nós aqui no Brasil teremos uma razão bem forte para acreditar que o movimento da tradicional Campanha da Fraternidade (CF), já em curso desde sua preparação próxima, vá se unir bastante bem ao Jubileu da Esperança. Penso que isso não será tão difícil de ser conseguido, ao menos teoricamente. A CF 2025 propõe o tema para ser vivido nas paróquias e dioceses brasileiras: “Fraternidade e Ecologia Integral”, que está muito bem fundamentada no lema original: “Deus viu que tudo era muito bom”, de Gn 1,31).
Em termos de preparação eclesial latino-americana, é gratificante saber que, nos dias 17 e 18 de fevereiro últimos, as presidências da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e da Rede Eclesial para a América Latina e o Caribe (SELACC) reuniram-se em Brasília, pensando e organizando estratégias eclesiais sobre a COP 30. Por ocasião do Encontro, o cientista e professor Jackson Matos, da Universidade Federal do Oeste do Pará, fazia uma advertência muito realista aos bispos. Eis uma de suas afirmações: “[…] os avanços com estas Conferências (trata-se das COPS) são muito pouco transformados em ações concretas, ações de verdade. Então a COP 30, não tem como não dizer que é a nossa última chance, por ser em Belém, por ser na Amazônia e aí ter a possibilidade desta voz local. Se não houver esta perspectiva desta mudança, de que todo o mundo se conscientize e isso se transforme em políticas públicas, não vai adiantar nada”.
Ainda bem que a Igreja Latino-americana tenha se colocado na contramão do que parece acontecer nas esferas governamentais de alguns países. Basta lembrar o exemplo do que vem acontecendo no nosso país. O Observatório do Clima, órgão governamental que ajuíza tecnicamente como as coisas andam por este nosso vasto país quanto aos cuidados ecológicos, emitiu nas últimas semanas uma afirmação preocupante: ” […] A nove meses da COP 30, o Brasil dobra a aposta na expansão de petróleo na contramão de seu próprio compromisso com a missão 1,5 graus C, tentativa de promover a meta assumida no Acordo de Paris”. É que dias antes, o presidente Lula, em declaração destemperada, havia criticado a maneira como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA) está analisando a possibilidade de extração de petróleo na Amazônia… O presidente terá suas razões pessoais, mas nem um pouco de cunho sociopolíticas. Contudo, nada pode ir contra o que é técnico e científico. E, neste ponto, é bom que saiba que saiu nesta última semana um documento coletivo com mais de 100 assinaturas, até o momento, contrárias à exploração. Foi o Instituto Humanitas que divulgou o documento, em coleta de novas assinaturas.
A seguir, apresento dois fenômenos a serem considerados quando se fala e se pensa em ecologia. Entre tantos outros de menor impacto, escolhi o desmatamento e o aquecimento climático para que sirvam de motivações internas e externas de conversão nesta quaresma já às portas. Será também uma homenagem minha e nossa aos dez anos da LS, ou seja, conversão pessoal à “ecologia integral” de Francisco (LS números 137-155).
# O 1º. Fenômeno, do desmatamento, fica bem claro com o exemplo da nossa Mata Atlântica. Veja por que, me levou a pensar, quando li a análise de um especialista: “[…] A mata Atlântica está perdendo florestas maduras que abrigam uma rica biodiversidade e desempenham papéis fundamentais no equilíbrio climático e na segurança hídrica do país”. A afirmação é de Luis Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica, ao jornal O Globo do Rio. Um outro professor de ecologia Jean Paul Metzger, ainda acentua que “… o estudo (a USP está fazendo um estudo sobre a questão) mostra que o desmatamento ocorre para a criação de pastagem, que é para a criação de gado de forma mais extensiva que gera uma renda baixa. Não faz sentido perder uma floresta tão valiosa para colocar pasto“. É o mínimo que se possa dizer, em bom tom, a todos os fazendeiros gananciosos que se esquecem dos princípios mais fundamentais da Ecologia, e que garantem a preservação da vida. Esta foi-nos dada abundantemente e de forma tão gratuita pelo Criador. O salmista tem razão ao louvá-lo, quando aclama: “Que a glória de Iahweh seja sempre; que Iahweh se alegre com suas obras! Ele olha a terra e ela estremece, toca as montanhas e elas fumegam”. Leia num dos últimos salmos de louvor – Sl 104(103), 31-32.
# O 2º. fenômeno, do aquecimento global, apresento-o sem muita análise técnica em duas mensagens. Reproduzo-as muito simplesmente.
1a.) Numa reportagem já de quase 3 anos atrás, Eco Debate advertia sobre o risco que a humanidade passava se não houvesse um esforço concentrado e global para diminuir o aquecimento climático. A afirmação ecoa ainda hoje e deve ser um meio de conscientização: “[…] hoje, a principal causa para o aquecimento global é a queima de combustíveis fósseis e a emissão de gás carbônico global, ambas derivadas de atividades humanas. A queimada das florestas é outro fator que impacta muito as alterações dos ciclos normais nos ecossistemas terrestres. O gás carbônico em excesso dificulta a saída dos raios infravermelhos vindos do sol, provocando uma maior estadia deles na atmosfera e aquecendo o ambiente acima do normal… Eu posso dizer que essa clara explicação do que poderia acontecer está em sua plena execução assustadora“.
2a) Também em entrevista mais recente, o bispo Dom Vicente de Paula Ferreira, que assessora a CÁRITAS BRASILEIRA NE3 da CNBB e membro da Comissão Integração e Mineração da mesma CNBB, foi muito objetivo e claro ao apresentar o problema do aquecimento como polarizador de outras questões sobre a crise ecológica. O bispo foi convidado pela Câmara dos Vereadores de Aracaju (SE) para discorrer sobre o tema ecológico da CF 2025. Nesse contexto, deu também uma entrevista ao jornalista Cristian Goes, da qual retirei a sua resposta a uma das questões levantadas. Ao ser questionado sobre o aquecimento global ele respondeu: ” O aquecimento global é uma imagem que reúne todas as situações dos problemas que acontecem. Mas não é só o aquecimento. Mas parece que sobre ele confluem todas as nossas indagações. O aquecimento global é uma pauta que se impõe. Ele é uma resposta do nosso planeta às nossas ações humanas. Então a primeira coisa a considerar são as raízes humanas da crise ecológica… (Ela) não só é problema nosso porque nos afeta, ela é causada em muitos sentidos por nós. Esse aqui é um dos pontos do nosso drama, que é um estilo extremamente pautado por um sistema que a gente conhece, do lucro acima de tudo, do extrativismo sem limites para proteger uma minoria planetária. Esse é o nosso grande drama hoje: 1% da população global detém mais de 50% das riquezas do planeta e ainda se acelera os controles dos territórios, das reservas, do petróleo, das energias, dos alimentos…“. O entrevistador Cristian Góes publicou a sua matéria no Mangue Jornalismo, no dia 11 de fevereiro último.
Pense, medite e tente encontrar uma maneira de agir em seu ambiente, sem se sentir culpabilizada/o, antes, pelo contrário, desejosa/o por realizar pequenas ações que lhe consolem por estar entrando na tal “conversão” à Ecologia integral. O papa tem um parágrafo muito bonito na Laudato Si que exprime bem o que ele deve estar passando agora na sua doença. Com ela, eu termino as reflexões ecológicas apresentadas acima, pensando nessas palavras que são um testemunho de vida :
“Deus, que nos chama a uma generosa entrega e a
oferecer-lhe tudo, também nos dá as forças e a luz de que
necessitamos para prosseguir. No coração deste mundo, permanece
presente o Senhor da vida que tanto nos ama. Não nos abandona, não nos deixa sozinhos porque Se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!
– Laudato Si, nº. 245 –
++++++++++++++++++++
ECOS DO JUBILEU DA ESPERANÇA
Hoje apresento dois que ecoam de Roma e que faz bem ao coração:
1º.) – Foi inaugurado no último dia 15 de fevereiro, na Via della Conciliazione (Roma), um espaço que abrigará uma Exposição de Arte pensada pelo Dicastério para a Cultura e Educação (Vaticano) para contribuir com a movimentação das peregrinações do Jubileu 2025. Trago esta contribuição nas palavras do responsável e arquiteto desta obra, Roberto Cremascoli: “O espaço é uma janela que abre para o mundo, que abre a Via della Conciliazione, que é a rua que faz a ligação entre os Peregrinos e a Basílica São Pedro. É um quarto ou uma stanza, como se diz em italiano, e é um quarto que se abre para o mundo. O jubileu de 2025 já está a registrar uma chegada aqui em São Pedro de cerca de 50 mil pessoas por dia. Se só um pouquinho destas pessoas que passam pela Via della Conciliazione olharem para dentro e serem olhados pela janela – e, neste caso, pelos retratos que estão sendo expostos aqui na janela – já vai ser um grande objetivo do Dicastério para a Cultura e Educação da Santa Sé, que é de abrir e levar a Arte a todos. Esta é uma galeria democrática”.
2º.) – Neste sétimo domingo do Tempo Comum (23/02), deu-se por concluída a quarta grande Peregrinação internacional a Roma dos Diáconos Permanentes (21 a 23/02). O Vaticano deu algumas informações interessantes. São 6 mil os peregrinos, vindos de 100 países. O Brasil é a nação que teve o maior número de diáconos, com o expressivo número de 230, acrescidos dos familiares. Na Missa conclusiva, solenemente celebrada na Basílica de São Pedro, foram ordenados 23 novos diáconos permanentes, dos quais dois brasileiros (um deles foi durante alguns anos Ministro na Paróquia São Luiz Gonzaga, dos Jesuítas na capital paulista, onde eu o conheci bem), presidindo a celebração o Cardeal Dom Rino Fisichella em lugar do Papa Francisco. Este não deixou de estar presente em espírito, ao enviar à Celebração o texto para leitura da Homilia, repleta de Esperança.
Estes dois acontecimentos representam e justificam o grande trabalho de conscientização bem atualizado de nossa Igreja Católica, para uma maior vivência ali onde nos encontramos, do Jubileu 2025. Por hoje, bastam estas duas manifestações. Como eu disse na introdução desta crônica, eu irei apresentar durante este ano outras novidades, para nossa participação nesta imensa Graça do Alto, de se poder estar celebrando um ANO SANTO, Amém!
Na alegria e ao mesmo na apreensão do que possa acontecer com o querido Papa Francisco – intensifiquemos nossas orações por ele – segue o meu afeto, cheio de muito carinho fraterno.