Somos enviados

No Evangelho de Lucas (10, 1), ao narrar a missão dos setenta e dois discípulos, lemos: “o Senhor escolheu outros setenta e dois, e os enviou à sua frente, dois a dois, a toda cidade e lugar aonde ele devia ir”. Também nós, hoje, somos escolhidos e enviados por Jesus, chamados a ir aonde o Espírito nos conduz, carregando no coração o “desejo de desejar” ardentemente amar e servir.

Somos chamados a discernir os movimentos do Espírito que, na inspiração inaciana, nos coloca a caminho, como fizeram os setenta e dois, disponíveis para ir aonde houver maior necessidade e para um maior serviço. Somos enviados com o coração transbordante do desejo de atingir o Magis: que nos conduz ao louvor de Deus e ao bem das pessoas.

No conto ‘O Príncipe e a Lavadeira’, Nuno Tovar de Lemos, SJ, apresenta, em diálogo com a “corte celestial”, as tentações sutis que atravessam a vivência do amor e podem nos desviar da missão. Entre elas estão: “dar-se-sem-se-dar”; “fazer- coisas-em-vez-de-estar”; “dar-a-mão-sem-se-abaixar”; “dar-para-se-preencher”; “vender-se-para-agradar; “manipular-o-outro-para-não-o-perder”. Reconhecer essas armadilhas é um passo essencial para amadurecer um amor que seja livre, encarnado e verdadeiramente servidor.

Ao contemplar, participando da cena, escutando a voz do Mestre Jesus que envia os setenta e dois como trabalhadores para a sua colheita (Lc 10, 2), alertando-os sobre os perigos a serem enfrentados e orientando-os quanto à postura a ser assumida no caminho e em cada lugar aonde chegassem (Lc 10, 2- 3), sintamo-nos também convidados a entrar nessa dinâmica de envio.

Retomando o que escreveu Nuno Tovar: “O amor, para ser amor, tem de ser livre dos dois lados” (p. 74). Ancorados na inspiração inaciana de “em tudo amar e servir” e no imperativo evangélico de Jesus “Ide!”, estejamos dispostos a acolher as necessidades do outro, a respeitar os silêncios carregados de falas, a ser presença que consola.

Em meio ao turbilhão de acontecimentos contemporâneos que nos atravessam e, não raras vezes, nos despertam sentimentos de impotência e desolação, somos chamados a permanecer disponíveis interiormente. Devemos discernir os afetos e escolher, com liberdade, aquilo que mais nos conduz à vida, à esperança e à consolação, tanto para nós quanto para aqueles que encontramos no caminho.

Para dar continuidade à sua reflexão e crescimento pessoal:

Sugiro a leitura do livro ‘O príncipe e a lavadeira: redescobrir a fé cristã, histórias simples para falar de Deus e de nós’, de Nuno Tovar de Lemos (Ed. Loyola).