Luiz Beltrão
Você pode estar dizendo a si mesmo ou a seus amigos: “Mais uma vez, uma Campanha da Fraternidade sobre ecologia! Que chato! Em vez de falar de coisas de fé, lá vem a CNBB, de novo, enchendo o saco com esse tema de ‘proteja a natureza’, ‘não desperdice água ou alimentos’, ‘salvem as árvores’! O que isso tem a ver com a fé? Por que não se ocupar do que realmente importa que é a nossa salvação, a doutrina e a espiritualidade?”.
É… Às vezes, podemos ter a impressão de que falar sobre ecologia e cuidar da natureza são temas de menor importância para a fé cristã, como se estivessem distantes daquilo que realmente importa: a nossa salvação e a espiritualidade. Mas, permita-me caminhar um pouco mais fundo nessa questão, para que possamos ver juntos como o cuidado com a Casa Comum está no coração do Evangelho.

A fé cristã não é uma ideia abstrata, nem um simples consolo espiritual. Jesus Cristo não veio apenas para nos falar de doutrinas, mas para nos ensinar a viver como filhos de Deus e irmãos uns dos outros. Ele caminhava entre as pessoas, tocava os doentes, olhava nos olhos dos que sofriam, multiplicava o pão para os famintos e nos ensinava que o amor de Deus se manifesta em gestos concretos. E o cuidado com a criação faz parte desse amor concreto!
Talvez você se pergunte: o que a ecologia tem a ver com a fé? Respondo: tudo! Uma vez que Deus é Criador amoroso do céu e da terra, então cada árvore, cada rio, cada ser vivo que existe no mundo é uma expressão do seu amor. E não é só isso: Deus, como comunidade trina de amor, criou tudo parecido com Ele mesmo: como uma grande comunidade de vida, em que tudo está interligado, onde todos dependem de todos e se relacionam uns com os outros; e foi isso que Deus viu que era muito bom. Depois de crescer e multiplicar, é nossa missão mais fundamental guardar e cultivar a criação, esse lindo jardim de Deus, ou seja, proteger e utilizar com responsabilidade o que a natureza oferece. Sacou que ser cristão é, por essência, ser ecológico? Que a fé cristã tem tudo a ver com ecologia?
Mas, até aqui, estamos falando de uma ecologia natural. Mas, sabia que a ecologia tem toda uma pegada social?
Como podemos ser discípulos de Cristo e ignorar que os pobres são os que mais sofrem com a destruição do meio ambiente? Não sabia? Pois é… são os pobres os que habitam as regiões menos dotadas de infraestrutura, como saneamento básico, tratamento de esgoto e água potável; são eles quem mais sofrem com a contaminação da água e do solo e quem menos têm serviços de saúde com qualidade para lhes proteger; são os pobres os que moram em encostas, na beira de rios, em palafitas e favelas e que muitas vezes arrancam o seu sustento de regiões sujas e poluídas, como lixões ou aterros. Você realmente acha que uma enchente, um alagamento, um deslizamento de terra, uma seca prolongada, uma onda de calor extremo afeta igualmente ricos e pobres? É claro que não. Os pobres são os que mais sofrem as consequências dos desastres ambientais e das mudanças climáticas. Percebeu a importância do cumprimento dos acordos internacionais sobre o clima – e que a cada reunião dos países parece estar mais distante?
É, mano, a crise ecológica não é apenas uma questão ambiental; é uma questão moral, espiritual e social. É uma questão concreta, diária e urgente, que deve afetar nosso modo de ver e relacionar as coisas.
Quando falamos em “não desperdiçar água ou alimentos”, não estamos simplesmente dando um conselho ecológico, mas lembrando que há milhões de irmãos e irmãs nossos que sofrem com a fome e a sede, que o alimento e a água potável não chegam a eles e, assim, vemos que, no fundo, a questão ecológica é uma questão de justiça social – e isso deve nos incomodar. Quando defendemos a proteção das florestas, não é apenas pelo bem das árvores ou dos animais, que já seria muito, mas também porque nelas vivem comunidades inteiras que, apesar de serem quem mais preserva a natureza, são expulsas de suas terras e têm sua cultura destruída para a plantação de monoculturas que abastecem o mercado externo. A devastação do planeta anda de mãos dadas com a exploração dos pobres e a cultura do descarte, inclusive das pessoas.
Veja o exemplo de São Francisco de Assis, que chamava o sol, a lua e os animais de “irmãos e irmãs”. Ou de Santo Inácio, que se encantava com uma flor ou um pequeno verme, porque buscava e encontrava Deus em todas as coisas. Eles compreenderam que toda a criação é parte de uma grande família querida por Deus. E que, por sermos cristãos, não podemos ficar indiferentes ao mal que o ser humano vem causando à criação e aos seus irmãos, sobretudo aos mais pobres.
A espiritualidade cristã não é preocupada apenas com as coisas “espirituais” ou que falam das realidades “do alto”, porque a lição que Deus nos dá é a da encarnação, de entrar na realidade, de se ocupar com ela para transformá-la desde dentro. A salvação que Cristo nos oferece não é uma fuga do mundo ou uma realidade para depois da morte, mas uma vida nova que começa aqui e agora; como Jesus disse a Zaqueu: hoje a salvação entrou em tua casa (Lc 19,9). Essa salvação, que começa no hoje da história, vai transformar céus e terra e cristificar a criação inteira, que geme e sofre em dores de parto por causa do nosso pecado ecológico. Seguir Jesus é, então, assumir sua missão de restaurar todas as coisas em Deus. Isso inclui restaurar a dignidade dos pobres e restaurar o equilíbrio da criação, porque tudo está interligado.
Aproveite então essa Campanha da Fraternidade da CNBB para se aprofundar em uma verdadeira e profunda “conversão ecológica”, que te liga mais concretamente a Deus, a si mesmo, aos outros e a toda a criação, para que tudo volte a ser muito bom, como viu o nosso Deus ao criar todas as coisas.
Rezo por você, para que sua fé se fortaleça e para que sua vida seja cheia do Espírito Santo, que renova todas as coisas. E lembre-se: quando cuidamos da Casa Comum, estamos cuidando do altar de Deus, que é o mundo.
Grande abraço.
Imagem: Foto de Charly Seyler na Unsplash