Lilian Carvalho
Mais um ano pela frente, mais um dia se inicia e o coração busca aquele que dá sentido à existência. Depois de uma leitura atenta à bula “A esperança não confunde”, do Papa Francisco, recolho-me para deixar decantar no coração as iluminações de Deus. Afeita ao silêncio, busco a Deus num momento carinhoso de oração. Na partitura da alma, notas musicais ocupam as pausas, melodias e letras me conduzem nesse mergulho ao coração.
“Quem me chamou
Quem vai querer voltar pro ninho
E redescobrir seu lugar
Pra retornar
E enfrentar o dia-a-dia
Reaprender a sonhar…”
Para enfrentar o cotidiano nada melhor do que escutar o convite de Deus, que deseja nos dar a vida em plenitude. Nessa composição belíssima de Guilherme Arantes escuto a voz de Deus me acolhendo nesse início de ano, de dia, de encontro. A música fala sobre o desejo de descobrir o nosso lugar no mundo, a que viemos, qual nossa missão. Nesse encontro místico com o Senhor alargo o coração para poder descobrir minha missão, vocação e assim sonhar, servir e amar.
Sonhar é fundamental para viver. Meu pai sempre me ensinou a ter grandes sonhos e dizia: quem não sonha, para de viver. É que os sonhos são como reminiscências do mistério de Deus que a esperança semeia em nós, são força motriz da vida. Queremos sonhar, ter esperança de que um outro mundo é possível, mais fraterno, mais humano, mais divinizado, mais justo, mais harmonioso, mais belo, mais santo. Acolho o Ano Jubilar como um presente. A nossa Igreja, com sabedoria, faz travessia em tradições judaicas antigas que se tornaram cristãs e nos convida a fazer e viver o ano de 2025 como Ano Santo para nutrir em nós a esperança, fonte de vida.
A memória me convida a visitar textos antigos da Sagrada Escritura. Desde o início, o ano do Jubileu marca a história do povo de Deus, coroando com a liberdade os escravos, dando o descanso à terra, o perdão das dívidas, a restituição da posse da terra a quem a houvesse perdido (Lv 25,1-15). Jesus dá continuidade a essa tradição que celebra a misericórdia infinita de Deus que a tudo contempla. Ele proclama o Ano da Graça do Senhor, no qual Ele mesmo se revela como a cura, o perdão, o amor e a liberdade para toda a humanidade (Lc 4,18-19).
Como seguidora de Jesus, desejo entrar nessa dinâmica da Igreja para fazer a experiência da misericórdia de Deus que cura, perdoa e liberta e devo colocar-me a caminho. Tudo é graça, até o desejo de desejar, como nos ensina Santo Inácio, o peregrino. Na disponibilidade do meu ser, Deus se revela e pode transformar o mundo. E embora tudo me faça pensar que não, a graça de Deus sempre sustenta a esperança. Fico tentando imaginar a força que surge da oração de todo povo de Deus vivendo e rezando juntos, no mesmo propósito de conversão. Imagino a vitalidade maravilhosa que se derrama sobre o mundo quando a Igreja, em unidade, vive na confiança da misericórdia divina.
Permaneço alguns instantes com o calor desses pensamentos na alma e a música volta como trilha sonora desse momento:
“Você verá que é mesmo assim
Que a história não tem fim
Continua sempre que você
Responde sim à sua imaginação
A arte de sorrir
Cada vez que o mundo diz não…
Você verá
Que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
E não esquecer
Ninguém é o centro do universo
Assim é maior o prazer”
Contemplo as realidades do mundo, mundo que cada vez mais parece dizer não à vida. Inquietações, incertezas, medo e angústia atormentam o coração. Mas a música me recorda que “ninguém é o centro do universo”. Sim, somos todos parte da Vida de Deus, sempre interdependente. Diante das feridas da humanidade e do planeta causadas pelas guerras, pela indiferença, pela exploração inconsequente da natureza e instrumentalização de tudo, o futuro parece sombrio. Fica difícil sonhar assim, mas é preciso! Volto o olhar interior para as pessoas que gastam suas vidas em projetos solidários, em buscar a cura de doenças, em pesquisar alternativas para uma economia sustentável, para a construção de pensamentos mais coerentes com o propósito de defesa da vida, enfim, para construir o Reino de Deus aqui e agora. É nesse paradoxo tão humano da vida que sinto quão urgente é recuperar o vigor e o sentido de sermos verdadeiros peregrinos da esperança como Jesus é para todo o sempre. Deus sonhou um outro mundo para nós. Uma vida que não é apenas a luta para sobreviver, mas a possibilidade de “brincar de viver” para todos sem exceção, pois só assim a alegria é verdadeira, “é maior o prazer” de viver.
Reaprender a sonhar… esperançar! Para mim, esse é o convite que ficou ressoando no coração para o Ano Santo. E sonhar com os pés no chão, em movimento de abertura e acolhimento, peregrinando por esse mundo para conhecer a dor do outro, se fazer o seu próximo, crescer e construir juntos pontes de vida e estradas de esperança. No coração arde o desejo de receber as graças que, abundantemente se originam no amor de Deus, revelado por Jesus. Mas é preciso viver o processo, peregrinar interiormente, reconhecer os impedimentos que nós mesmos colocamos à graça de Deus e nos entregarmos docilmente à ação do Espírito Santo que nos conduzirá certamente para o querer de Deus. O tempo de oração se esvai assim como a música vai terminando, deixando um convite:
“E eu desejo amar todos
Que eu cruzar pelo meu caminho
Como sou feliz, eu quero ver feliz
Quem andar comigo, vem!”
Para rezar, fazer e viver o Ano Santo, leia: Spes non confundit. BULA DE PROCLAMAÇÃO DO JUBILEU ORDINÁRIO DO ANO 2025. PAPA FRANCISCO.