Pe. Laércio de Lima, SJ
O impacto do anúncio do dia 13 de março de 2013 foi muito forte. A novidade de termos um latino-americano e jesuíta, como Papa da Igreja, nos emociona até hoje. Nestes dias, ainda celebrando esta data histórica, vemos que o tempo passou e as surpresas não pararam mais. O seu modo de ser e de conduzir, assim como de deixar-se conduzir pelo Espírito, nos impressiona até hoje.
Francisco instaurou na Igreja um novo modo de ser pastor; o seu pontificado está sendo muito voltado ao modo como os bispos devem ser bispos, e ao modo como os padres devem ser padres. Reiniciando a estes no caminho do pastoreio, de abraçarem um estilo de vida com “odor de ovelha”, certamente afeta também a todos os cristãos, mostrando a importância do batismo e a força da presença do Espírito.

Passaram-se 12 anos, e podemos dizer que é tempo suficiente para marcar um estilo de vida – Francisco abriu a Igreja à universalidade, escolhendo cardeais das partes mais desconhecidas e fora de mão. O seu grande desejo é dar à Igreja um rosto novo, um respirar novo, características novas.
No livro Sui sentieri di Dio (San Paolo, 2012), o padre e professor da Gregoriana em Roma, Francesco Cosentino, cita Emmanuel Mounier, quando este já anunciava, em 1979, que aconteceria a morte de um cristianismo ocidental, feudal e burguês, mas que haveria de nascer um cristianismo novo, amanhã ou depois de amanhã, de um novo estrato social e de um novo enxerto extra europeu. Porém, diz Mounier, necessitamos que não sufoquemos este novo cristianismo, que virá com o cadáver da cristandade que morreu.
Certamente, nem Francesco Cosentino nem Emmanuel Mounier tinham em mente um pontificado como o de Francisco. O primeiro, pelo fato de ter lançado o livro em 2012, antes da eleição de Francisco. O segundo, por motivos óbvios, pois morreu no milênio passado. O certo é que ambos tinham como esperança o momento da renovação e do brotar deste novo cristianismo, que não estaria mais centralizado na Europa, e poderia respirar novos ares, desde e a partir da hierarquia mesmo.
O Livro que eu escrevi, com o título: Francisco, o Papa da Esperança (Gutemberg, 2020), já nasceu como um hino de louvor a Deus por tantos gestos proféticos e arejados que Francisco nos apresentou, desde o seu início de ministério apostólico. Cinco anos após o lançamento deste livro, já poderia confirmar em uma nova edição como este pontificado se manteve profeticamente no caminho do Evangelho, apontando decididamente para uma nova evangelização, brotando gestos e símbolos das periferias do mundo, colocando a Igreja Católica, no mundo todo, a tomar uma decisão pela escolha de viver Cristo no mundo, em gestos concretos e perenes.
Após esta crise de saúde, todos alimentamos a alegre esperança de que teremos Francisco conosco por mais tempo; não sabemos ainda como, quanto tempo, em que situação. O certo é que, em momento nenhum, ele deu sinal de fragilidade ou de desistência nas opções feitas até hoje. Até quando o Espírito quiser, seremos conduzidos por ele; Francisco, este bravo Jesuíta, que corajosamente marca a história como um grande cristão, um seguidor, apóstolo de Jesus Cristo.
Não sabemos quais serão os próximos capítulos. Sabemos apenas que, nestes 12 anos, foi possível respirar este novo ar, retomar a alegria e a leveza de vivermos e pertencermos a uma Igreja inclusiva, preocupada com o humano como um todo, e com a criação. Francisco definitivamente renovou a nossa esperança, de que podemos e devemos colocar a Cristo no centro, e que a vivência do Evangelho é possível, mesmo em situações tão desafiadoras como as que ele viveu e vive neste momento da sua vida.
Francisco, obrigado por nos renovar a esperança e nos ajudar a enfrentar, neste momento, um “novo ateísmo que não é mais fruto de argumentos científicos ou intelectuais, mas fruto de uma imagem, ou ideia de Deus equivocada reforçada pela ignorância e pelo medo que não corresponde ao Deus do Evangelho” (J. Moingt, 2005).
Imagem: Ashwin Vaswani (@ashwinv11) de Unsplash