A bússola do coração: como Deus nos fala através dos nossos desejos

Você saberia orientar-se por uma bússola?

Existe um detalhe curioso sobre esse instrumento: basta aproximar um ímã da agulha para que ela deixe de apontar para o Norte. A bússola continua funcionando, mas outra força passa a orientar sua agulha. Ela não está quebrada; apenas perdeu a referência.

O coração humano funciona de maneira muito semelhante.

Conheço um jovem pai que passa boa parte dos seus dias no trabalho. Se perguntarmos por que, ele responderá que deseja crescer na carreira e oferecer uma vida melhor à família. É um desejo bom: cuidar de quem ama, ser um bom pai, oferecer segurança.

Aos poucos, porém, algo começa a se desordenar. Quanto mais trabalha para cuidar da família, menos tempo tem para estar com ela. Chega em casa cansado, perde momentos importantes, responde aos filhos sem a paciência de antes. Continua dizendo que faz tudo por amor, mas esse amor já não encontra espaço para ser vivido.

O desejo permaneceu o mesmo: cuidar de quem ama. O que mudou foi aquilo que passou a orientá-lo. O medo de fracassar, a ansiedade pelo futuro, a necessidade de controlar tudo tornaram-se um ímã aproximado da bússola. A agulha continuava a mesma, mas deixara de apontar para o seu verdadeiro Norte.

São os afetos desordenados que desorientam essa agulha: apegos que se instalam ao redor de um desejo bom e o desviam de sua direção verdadeira. No caso daquele pai, o Norte não era apenas oferecer conforto à família, mas tornar-se, para os filhos, um reflexo da paternidade de Deus: alguém cuja presença transmite cuidado, cuja palavra gera confiança, cujo amor oferece segurança.

O medo talvez seja o ímã mais poderoso que existe. Faz a agulha procurar apenas a sobrevivência, quando ela foi criada para apontar para o amor. O mesmo desejo de servir pode nascer de uma generosidade sincera e, aos poucos, passar a ser orientado pela necessidade de provar o próprio valor. O mesmo desejo de trabalhar pode brotar do amor pela família e terminar conduzido pelo medo de fracassar.

Aprender a reconhecer esses apegos já é um bom começo do discernimento.

Nem mesmo Santo Inácio, o grande mestre do discernimento, começou sabendo distingui-los. O desejo de defender a honra de Nossa Senhora pela espada diante do mouro, a ânsia de superar os santos em penitências, o impulso de servir os pobres e os doentes: tudo isso escondia ainda um coração movido pelo voluntarismo, pelo fervor indiscreto, pela necessidade de corresponder a Deus pelas próprias forças.

Seus desejos não eram maus; precisavam ser libertados dos apegos que os desviavam. Foi nesse processo que Inácio aprendeu a não se deixar conduzir inconscientemente pelos próprios afetos, mas a permanecer atento, como escreveria depois nos Exercícios Espirituais, para “não se deixar determinar por nenhuma afeição desordenada”.

Entre o desejo mais profundo do coração e aquilo que primeiro percebemos existe, muitas vezes, uma grande distância. Discernir é também aprender a afastar esses ímãs: reconhecer as desordens, chamá-las pelo nome, e permitir que Deus liberte os desejos mais verdadeiros das forças que os desviam.

Essa mesma pedagogia aparece no encontro de Jesus com a mulher samaritana (Jo 4). A conversa começa falando de água; ela responde falando do poço. Mas Jesus não permanece na superfície. Pouco a pouco, conduz aquela mulher até a sede mais profunda que habitava o seu coração: não elimina sua sede; conduz até a fonte capaz de saciá-la.

É assim que Deus costuma agir conosco: não elimina os nossos desejos, mas conduz-nos até a sua verdadeira fonte.

Quando o medo orienta um desejo, ele busca controle, garantias, aprovação. Parece preencher, mas deixa um vazio difícil de explicar: é a agulha presa ao ímã. Quando o amor volta a orientá-lo, tornamo-nos mais livres, mais disponíveis, mais capazes de servir. Nem sempre é o caminho mais fácil, mas é o que faz crescer a vida. Talvez esse seja um dos primeiros critérios do discernimento inaciano: os desejos livres desses apegos não apenas nos atraem, eles nos tornam mais vivos.

Os desejos são como a agulha daquela bússola. Nem sempre apontam imediatamente para o Norte; precisam ser educados, purificados, calibrados. Esse é o trabalho paciente que Deus realiza em nós. Talvez aquele pai descubra que amar melhor não depende de trabalhar mais, mas de permitir que Deus afaste o medo de não ser suficiente, que o faz acreditar que a sua presença pode ser substituída por aquilo que consegue oferecer. Só então o seu desejo mais verdadeiro, o de tornar-se, para os seus filhos, um reflexo da paternidade de Deus, voltará a orientar os seus dias.

Fica, então, uma pergunta para levar à oração desta semana: que desejo bom, em mim, tem sido desviado pelo medo? Será que ainda não tive coragem de deixar Deus libertá-lo, para que volte a apontar para o amor?