O GPS espiritual
Quando rezamos para confirmar, e não para discernir.
Tenho uma amiga que mora na mesma cidade há anos, mas que, toda vez que entra no carro, repete o mesmo ritual: prende o celular no painel, digita o destino e liga o GPS. Durante o trajeto, seus olhos raramente deixam a linha azul desenhada na tela. Ela sabe exatamente quando virar, qual avenida evitar e quanto tempo falta para chegar. E, curiosamente, chega sempre ao destino sem realmente conhecer a cidade. Enquanto segue a rota perfeita, as praças, as pessoas e as pequenas surpresas do caminho tornam-se apenas borrões na janela.
Aos poucos, ela foi perdendo algo. Continua chegando ao destino, mas já não conhece o caminho que a levou até ele. Se o celular descarrega, ela se perde. Se alguém lhe pede uma direção, dificilmente consegue indicar o caminho. Acostumou-se tanto a seguir a linha azul desenhada na tela que deixou de conhecer a cidade por onde passa todos os dias.
Sempre que penso nessa cena, lembro-me de um verso de uma canção de Chico César: “o caminho se conhece andando”. Talvez seja justamente isso que estamos esquecendo. Quanto mais dependemos de alguém que nos diga cada passo, menos desenvolvemos a capacidade de discernir.
Mas isso vale muito além das ruas da cidade. Talvez essa pequena cena diga mais sobre nós do que sobre o trânsito.
Vivemos em um tempo em que aprendemos a valorizar mais a chegada do que a caminhada. Queremos o destino final, a resposta imediata, a certeza antecipada. Aos poucos, esquecemos que algumas das experiências mais importantes da vida acontecem justamente durante a travessia.
Guimarães Rosa intuiu algo profundamente verdadeiro ao escrever que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Mas nós já não confiamos na travessia. Queremos chegar antes mesmo que ela nos transforme.
Essa lógica não permanece apenas nas estradas. Sem perceber, ela também molda a maneira como nos relacionamos com Deus. Passamos a tratá-Lo como um GPS espiritual.
Entramos no “carro” da nossa existência, definimos o destino que imaginamos ser o melhor e, só então, rezamos esperando que Deus confirme a rota escolhida. Queremos que Ele nos diga onde virar, qual caminho evitar, quanto tempo ainda falta. Esperamos uma resposta clara, um sinal inequívoco, uma certeza que elimine qualquer risco de errar.
O problema não está em desejar direção. O ser humano não vive bem sem horizonte; a inquietação diante das grandes decisões revela que a vida pede sentido. O problema é o tipo de direção que passamos a exigir de Deus: alguém que escolha por nós, que elimine a incerteza e nos entregue um caminho previamente confirmado. Por isso, tantas vezes transformamos a oração numa busca por respostas, quando Deus parece mais interessado em formar pessoas livres.
Não poucas vezes rezamos não para discernir, mas para confirmar. Já escolhemos interiormente o destino e apenas esperamos que Deus aprove a decisão tomada antes mesmo de entrarmos em oração. A oração deixa de ser um lugar de escuta e torna-se apenas um pedido de confirmação.
Fica, então, uma pergunta para levar à oração desta semana: em que momento tenho rezado apenas para confirmar um destino já escolhido? Ou será que Deus está me convidando a desligar o GPS, levantar os olhos da tela e conhecer, de verdade, o caminho que estou percorrendo?