A Contemplação para Alcançar Amor (CAA), apesar de estar no fim dos Exercícios Espirituais conferindo sentido e unidade ao conjunto do itinerário, é expressão espiritual da consolação que buscamos em todos os exercícios, seja de meditação ou contemplação. Por isso, desde o primeiro momento em que falamos de consolação, essa contemplação já está presente em germe, sendo fecundada.
A partir do que escrevi acima, começo falando da CAA como uma síntese vital para uma interpretação ampliada da consolação. Assim, a CAA não deve ser vista como um simples apêndice após as quatro semanas de Exercícios, ela é a síntese e consumação de toda a experiência. Enquanto a eleição de um estado de vida é o ponto culminantemente prático, a CAA é o ápice teológico e afetivo. Ela pertence à via unitiva, o estágio mais avançado da vida espiritual, onde a alma busca a união com Deus em todas as coisas. Então, a partir disso, a consolação não é um sentimento passageiro, mas um estado de consciência permanente, no qual o exercitante aprende a encontrar Deus não apenas no silêncio da oração, mas na realidade cotidiana.
Na CAA, encontramos a estrutura que define a consolação espiritual, a tríade que nos ajuda a compreender a vida humana em sua dimensão espiritual: Conhecimento, Amor e Serviço. Primeiro, o que Santo Inácio chama de Conhecimento Interno é o ponto de partida. Não se trata de um saber intelectual ou teórico sobre Deus, mas de uma assimilação da bondade divina. É sentir, na própria história, que Deus tem sido bom. Depois, o conhecimento interno desperta o amor. Santo Inácio define a consolação como uma moção interna na qual a alma se inflama no amor de seu Criador. Esse amor é o que permite a pessoa passar a amar as criaturas não por si mesmas, mas no Criador, num grande movimento interno do coração, próprio daqueles que amam profundamente. Finalmente, o amor que não se traduz em serviço é considerado enganoso por Santo Inácio. A consolação espiritual autêntica provê a energia necessária para o agir. O amor é o critério do conhecimento, e a atividade (serviço) é o que completa o amor contemplativo, tornando-o uma experiência humana total.
Assim, a CAA apresenta sinteticamente os temas das quatro semanas dos Exercícios, mas sob a ótica da gratidão e da presença divina. Na 1ª Semana, temos o Deus que dá: retoma o Princípio e Fundamento, olhando para a criação e a história pessoal de salvação. A consolação nasce ao reconhecer que tudo é dom, inclusive o perdão das próprias falhas e pecados. Na 2ª Semana, rezando a encarnação, nos encontramos com o Deus que habita. Assim, como Deus se fez homem em Cristo, Ele continua habitando em toda a criação, dos seres inanimados aos seres humanos, que são Seus templos. A consolação aqui é a percepção da sacralidade do mundo. Na 3ª Semana, entramos na Paixão com o Deus que trabalha. Ora, na terceira semana o foco são as fadigas de Cristo, aqui vemos Deus trabalhando incessantemente em todas as coisas para a nossa salvação. A consolação deriva da segurança de que Deus é um trabalhador ativo na história humana. Na 4ª Semana, rezamos a Ressurreição, e nos envolvemos com o Deus que é fonte. O olhar desloca-se do que Deus faz para o que Deus é. Todas as qualidades e dons, justiça, bondade, piedade, descem de Deus como raios do sol ou águas da fonte.
Finalmente, o texto dos Exercícios Espirituais faz uma distinção importante entre amor como gratidão pelos dons recebidos e amor como gozo pelo que o amado é em si mesmo. Na 4ª Semana e no quarto ponto da CAA, o exercitante é convidado a ser amigo de Cristo. A consolação atinge seu estado de espírito quando a alma possui o amado por meio da contemplação da Sua essência. Aqui, esta transição é crucial. A consolação deixa de ser interessada, por exemplo, amar porque Deus me deu algo; e torna-se perfeita porque ama a Deus que é bondade absoluta. Assim, a finalidade última da Contemplação para Alcançar Amor é estabelecer uma comunicação mútua e um intercâmbio constante. O amor consiste nesse dar e receber onde as duas partes se tornam uma. A resposta do exercitante é a oração: Tomai, Senhor, e recebei, devolvendo a Deus os dons que nos deste. A consolação espiritual é o ambiente onde essa união acontece, transformando a vida do exercitante em um ciclo contínuo de recepção dos dons divinos e oferta generosa de si mesmo em serviço para “em tudo Amar e Servir”!