Nos Exercícios Espirituais falamos muito de consolação e desolação. Essas moções nos ajudam a buscar a vontade de Deus. Aqui, não quero repetir o que sabemos, mas tentar ampliar nossa compreensão teórica do termo consolação que segundo J. Corella, no Dicionário de Espiritualidade Inaciana, é uma moção espiritual que procede sempre de fora, de Deus ou do bom espírito, sendo um dom gratuito que o ser humano não pode dar a si mesmo. Ela é definida como a linguagem própria de Deus para se comunicar com a criatura.
Comecemos com a Autobiografia de Santo Inácio. Nela, o termo consolação aparece, frequentemente, associado a momentos de grandes desejos e visões espirituais. Inácio experimentou consolações pontuais em sua conversão em Loyola e Manresa, mas viveu um estado de consolação contínuo durante sua preparação para o sacerdócio e a primeira missa em Vicenza e Veneza. Sua experiência evoluiu de sentimentos causados por penitências e visões de santos para uma mística centrada no divino serviço e no auxílio aos necessitados. Ele também descreveu consolações falsas (do mal espírito), caracterizadas por uma sensualidade difusa ou por distrações que impediam deveres realistas, como o estudo.
O texto fundamental para definir a consolação espiritual é a regra terceira dos Exercícios [EE 316]. Nela, Santo Inácio identifica três modalidades principais da linguagem divina: (1) Inflamar-se em amor: É uma consolação repentina e explosiva que unifica a afetividade da pessoa, de modo que ela não pode amar nada em si mesma, mas apenas no seu Criador. (2) Lágrimas: Associado ao elemento água, refere-se ao choro movido por dor pelos pecados ou contemplação da Paixão de Cristo, resultando em uma paz estável e serenidade. (3) Aumento das virtudes teologais: Consiste no crescimento da fé, esperança e caridade, além de uma alegria interna e quietude plena. Aqui, Deus torna-se transparente na realidade cotidiana, permitindo que as coisas da terra sejam vividas como coisas celestiais.
Importante perceber que essa estrutura possui uma dimensão trinitária em que a primeira forma remete ao Pai como Criador; a segunda à obra redentora do Filho; e a terceira à ação do Espírito Santo, que infunde vida e pacifica a alma. Então, a consolação não é um fim em si mesma, mas uma ferramenta pedagógica para buscar e encontrar a vontade de Deus em todas as coisas. Para ajudar mais, Santo Inácio distingue entre consolação sem causa (que vem apenas de Deus) e consolação com causa (que utiliza mediações e pode esconder enganos). Desta forma, o discernimento é crucial para identificar a cauda de serpente do mal espírito, que pode se disfarçar sob aparências de bem.
Deste percurso espiritual, Santo Inácio nos apresenta os principais critérios de discernimento, que incluem: (1) A consolação divina é pura no início, meio e fim. Se o curso dos pensamentos termina em algo menos bom, inquieto ou distrativo, provém do mal espírito. (2) Em pessoas que progridem, o bom espírito entra de forma doce e suave (como água na esponja), enquanto o mal espírito entra com estrépito e ruído. Assim, Santo Inácio ensina que a consolação verdadeira nos retira do egoísmo, do egocentrismo, fortalecendo-nos para assumir compromissos no mundo e seguir o caminho da maior glória de Deus. Ela é, em última análise, a confirmação de que o ser humano caminha em direção à sua união definitiva com o Criador através do amor e do serviço. Daí a consigna: em tudo amar e servir!