“Qual é a minha vocação?”
Essa talvez seja a pergunta que mais escuto no acompanhamento vocacional. Quase sempre ela vem acompanhada de outras: “Será que Deus me chama para ser padre, ou para a vida religiosa?”, “E se a minha vocação for o matrimônio?”.
Gosto dessas perguntas. Elas revelam um coração inquieto, desejoso de fazer a vontade de Deus. Mas, ao longo dos anos, fui percebendo que escondem um equívoco muito comum: confundimos a vocação com o caminho pelo qual ela será vivida. Confundimos os meios com o fim.
Padre, religioso, religiosa, casado, solteiro, missionário... tudo isso são formas concretas de responder ao chamado de Deus. Mas nenhuma delas é a vocação primeira do ser humano: antes de qualquer estado de vida, existe um chamado muito mais profundo.
O livro do Gênesis o apresenta logo nas primeiras páginas: fomos criados à imagem de Deus (Gn 1,26-27), mas a semelhança não nos foi dada como fato consumado. Ela é projeto de Deus para conosco, promessa a ser cumprida. Foi Santo Irineu de Lyon quem, ainda no século II, ensinou essa distinção: a imagem nos foi dada como dom; a semelhança nos foi confiada como caminho.
É Cristo quem, pelo Espírito, vai configurando pouco a pouco a nossa vida a essa semelhança. Talvez, por isso, antes de perguntar “o que Deus quer que eu seja?”, devêssemos perguntar: “a quem a minha vida está se tornando semelhante?” Todo o restante nasce dessa resposta: o matrimônio, a vida religiosa, o sacerdócio, a vida leiga são diferentes entre si, mas todos conduzem para a mesma direção: configurar a própria vida à de Cristo, o Norte para o qual a bússola sempre apontou.
Talvez seja por isso que, ao longo destas semanas, tenhamos falado menos sobre estados de vida e mais sobre o coração: abandonamos a imagem de um Deus que funciona como GPS, encontramos Santo Inácio se apresentando como “o peregrino”, e descobrimos que Deus educa esse peregrino através dos desejos mais profundos, libertando a bússola interior dos ímãs que desviam sua direção. A vocação não começa quando descobrimos um estado de vida, um ministério ou uma profissão. Ela começa quando aprendemos a responder ao Deus que continua chamando.
Há uma frase de Jerônimo Nadal, um dos primeiros companheiros de Santo Inácio, que sempre me acompanha: “Inácio seguia o Espírito, não se adiantava a Ele. Deste modo era conduzido serenamente por onde não sabia. Aos poucos o caminho se lhe abria e o percorria, sabiamente ignorante, colocando simplesmente seu coração em Cristo.”
Inácio não caminhava porque conhecia toda a estrada. Caminhava porque aprendera em quem confiar: o caminho ia se abrindo à medida que ele permanecia fiel ao Espírito. Nós, porém, fazemos frequentemente o contrário: queremos conhecer toda a estrada antes de dar o primeiro passo, pedimos garantias antes de responder, quando, na verdade, Deus nos convida apenas à fidelidade do passo de hoje.
Há uma cena do Evangelho que ilumina bem esse tipo de chamado: pequeno, silencioso, quase imperceptível enquanto acontece, e reconhecível apenas depois.
Dois discípulos deixam Jerusalém no fim da tarde, desanimados, convencidos de que tudo havia terminado. Perderam Jesus, perderam o futuro, perderam o sentido da própria caminhada. Enquanto conversam sobre o fracasso daqueles últimos dias, um desconhecido se aproxima e começa a caminhar com eles. Jesus não lhes entrega um mapa, nem responde imediatamente às perguntas que carregam: primeiro caminha, depois escuta, depois abre as Escrituras. Só muito mais tarde, quando parte o pão à mesa, os olhos dos discípulos finalmente se abrem, e eles reconhecem quem sempre estivera ao seu lado.
Então, olhando um para o outro, perguntam: “Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho?” (Lc 24,32).
O coração já ardia antes que os olhos reconhecessem; a confirmação veio depois. Talvez seja assim também com a vocação. Antes de compreendermos plenamente o chamado, Deus já caminha conosco, já educa silenciosamente o nosso coração. O reconhecimento quase sempre chega quando olhamos para trás e percebemos que Ele esteve presente durante toda a travessia.
O caminho não se abre porque finalmente encontramos todas as respostas. O caminho se abre porque descobrimos que nunca caminhamos sozinhos.
Talvez, então, a pergunta já não seja apenas “qual é a minha vocação?”, mas outra, muito mais decisiva: tenho vivido como alguém que responde, hoje, ao Deus que continua me chamando?
Jerônimo Nadal dizia que Inácio “seguia o Espírito e não se adiantava a Ele”, talvez porque soubesse que a vocação não é enxergar toda a estrada, mas caminhar com fidelidade Àquele que chama. Aos poucos, o caminho se abre, e Deus vai formando, nesse processo, não apenas o nosso futuro, mas o nosso coração.
Fica, então, uma última pergunta para acompanhar a oração desta semana: a que chamado de Deus tenho resistido por querer enxergar toda a estrada antes de dar o primeiro passo? Ou será que o Senhor me pede apenas a confiança suficiente para dar o passo de hoje e deixar que, aos poucos, o caminho continue a se abrir?