Rezar com o coração e a mente: modo inaciano de rezar com a Bíblia

Aprendemos a rezar, quando nascidos em família cristã, desde muito pequenos. Alguns com orações diárias ao Anjo da guarda, ao acordar, ao ir dormir, antes das refeições, ao viajar. Também o Terço ou ao menos a Ave-Maria aprendemos ainda pequenos. A frequência às Eucaristias dominicais ajuda a entender que há uma comunidade mais ampla, que comparte a mesma fé, e que existem ritos e fórmulas, um modo de rezar comum a todos.

Com Santo Inácio de Loyola (1491-1556) não deve ter sido diferente, pois nasceu no seio de uma família cristã, e conviveu na Corte dos “Reis Católicos”, nome dado pelo Papa Alexandre VI, em 1496, a Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, em reconhecimento da defesa da fé católica na Península Ibérica.

Fé é uma adesão particular, mas transmitida por palavras e pelo exemplo, assimilada pela reflexão, convicção e vivência pessoal. Numa época em que poucas pessoas sabiam ler, a transmissão da fé, o conhecimento das Escrituras e da doutrina eram primordialmente pelas pregações e pela arte.

Santo Inácio tinha uma condição social destacada. Sabemos pelo Relato do Peregrino que a Casa Torre dos Loyola tinha algumas telas, ao menos de São Pedro e de Nossa Senhora com o Menino Jesus. Tinha também dois livros, o que, na época, era raro, afinal, Gutenberg havia publicado o primeiro livro, a Bíblia, em 1455, na Alemanha – a versão em castelhano só foi publicada em 1569 (a Bíblia do Urso).

A Casa Torre tinha A vida de Cristo (Vita Christi), de Ludolfo de Saxónia, publicado em 1472 (impresso em castelhano em 1502), e Legenda Áurea (Flos Sanctorum), de Jacopo de Varazze , manuscrito publicado em 1260 (impresso em castelhano em 1493). Destacamos estes livros pois foram o canal direto de aproximação de Santo Inácio aos Evangelhos e aos modelos de vida cristã: os santos, o meio utilizado por Deus para se aproximar mais dele e dar-se a conhecer.

Vita Christi¹ visa levar o leitor a meditar, refletir, contemplar a vida de Jesus e colocar a mensagem recebida em sua vida cotidiana. O estilo é narrativo, um compilado de passagens evangélicas, apresentando os sentidos literal, alegórico, moral e analógico, enriquecido com explicações teológicas, e visando a edificação da vida espiritual. O autor denota intimidade com o Senhor, escreve em tom afetivo e orante, enfatiza a humanidade de Jesus, levando o leitor a “um conhecimento mais profundo de Cristo e à imitação do seu Senhor”. As imagens também ajudam a entrar mais nas perícopes, pela contemplação da cena bíblica. Bem podemos intuir o impacto que a leitura deste livro causou em Santo Inácio. Vejamos alguns trechos do proêmio:

“O presente tratado servirá para a prática da oração mental, que é feita na intimidade do coração, na qual participa a consideração das coisas celestiais, que é a principal causa da devoção” [...] Não há nada debaixo do céu mais justo ou mais devido do que amar, temer, servir e obedecer a este Senhor, e viver conforme a Sua santíssima vontade”².

Através da leitura orante da Vita Christie, em paralelo com a leitura das vidas dos santos na Legenda Áurea, seu coração foi se abrindo a Deus, seus desejos se modificaram, seu coração passou a arder por outro Rei, outra Dama, outra vida... Ser cristão é estar em contínua conversão, ainda que alguns eventos / acontecimentos, nos abram os olhos de forma mais clara e forte.

¹Cfr. BARREIRO, Álvaro. O livro da vida de Cristo de Ludolfo de Saxônia e os Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola. Perspectiva Teológica, v.39, n.109, p.351, 2007. DOI: 10.20911/21768757v39n109p351/2007. disponível em FAJE periódicos acessado em 25 maio 2026. Para ter uma ideia das, iluminuras visitar University of Glascow Library

²No original: “el tratado presente servirá al uso de la oración mental, que se hace con lo íntimo del corazón, en la cual entreviene la consideración de las cosas celestiales, que es la principal causa de la devoción” […] ninguna cosa hay debajo del cielo más justa ni más debida que amar, temer, servir y obedecer a este Señor, y vivir conforme a su santísima voluntad”.