Rezar com o coração e a mente: conhecer a si mesmo para discernir com liberdade

Santo Inácio, logo no início de seu livro, define os Exercícios Espirituais (EE) como “... todo modo de preparar e dispor a alma para tirar de si todas as afeições desordenadas e, depois de as ter tirado, para buscar e achar a vontade divina na disposição da própria vida para a salvação da alma.” [EE 1]

Mostrando como Santo Inácio conhecia a natureza humana, e a levava muito em conta, pouco adiante no livro dos EE, ele “esclarece” melhor esta definição, no título "Exercícios Espirituais para se vencer a si mesmo e ordenar a sua vida sem se determinar por afeição alguma que seja desordenada." [EE 21]

Esta pequena modificação, que poderia até passar despercebida, é um ponto muito relevante para qualquer pessoa que se proponha a fazer os Exercícios Espirituais. Tirar de si todas as afeições desordenadas não é um objetivo simples, se é que humanamente possível, mas não se deixar determinar por tais afeições, ainda que presentes, é sim algo possível, desde que se reconheçam tais desordens e se conte com a Graça. (cfr. Mt 19, 25)

Assim, já nestes dois pontos, se pode reconhecer os EE como uma “peregrinação” em direção ao autoconhecimento. No entanto, esta peregrinação não busca a perfeição humana, que, colocada como destino final, tornar-se-ia um ídolo e nos afastaria da felicidade (cf. Lc 18, 9-14), pois, como explicita o “Princípio e Fundamento” nos EE, esta (apresentada como “salvar a própria alma”) se encontra no louvor, reverência e serviço a Deus Nosso Senhor. Portanto, o caminho de quem faz os Exercícios Espirituais deve ser o de reconhecer suas afeições desordenadas e, a partir disto, exercer sua liberdade discernindo, cotidianamente, qual escolha leva mais próximo do “fim para o qual é criado”.

E onde entra a leitura da Bíblia nessa “escola”? Ou, dizendo de outra forma, como a leitura da Bíblia nos abre a porta para o autoconhecimento e para a liberdade?

A Bíblia, essa Coleção de Livros escritos ao longo de milênios por autores muito diferentes, mas sempre sob inspiração do Espírito Santo, nos apresenta o ser humano tal ele como é – portanto, a cada um de nós – com suas falhas, acertos, tristezas, alegrias, decepções e esperanças, exilado no mundo (cf. Gn 3,22-24), até que, por iniciativa surpreendente, Deus vai ao encontro da humanidade e estabelece com ela uma relação pessoal, uma Aliança (cf. Gn 15,5-6). Apesar disto, mesmo com Deus cumulando seus interlocutores (o povo escolhido) de graças, claramente imerecidas, a Bíblia nos mostra a triste resposta da humanidade, traindo (cf. Ex 32,5-6) e se esquecendo da Aliança (cf. Jz 2,10-13), buscando “explorar” a Graça para satisfazer suas “paixões desordenadas” (cf. Jr 7,4-11). Deus, obviamente, não se deixa “enganar”, no entanto, mesmo conhecendo o ser humano, tal como ele é (como nós somos), não desiste! Ele insiste, corrige e promete a “Salvação” (Os 2,14-20; Jr 31,31-34), que vai se identificando, aos poucos (cf. 2Sm 7,14;16), com a vinda de um “Escolhido” - Ungido, Messias, Cristo (cf. Is 9,6-7).

Ora, esta História da Salvação é motor, fonte de ânimo e consolação para cada um de nós. A Bíblia revela que a humanidade, pecadora, de quem cada um pode se reconhecer como representante fiel, é escolhida e amada, inexplicavelmente, por Deus. Toda a iniciativa pertence a Deus (cf. 1Jo 4,19)! Não importa quantas vezes, na história, os escolhidos errem, Deus sempre resgata a relação, resgata e promete Salvação.

Na perspectiva dos EE, este movimento inicial, de descobrir-se amado ao mesmo tempo que pecador, deve inquietar, despertar uma busca deliberada. Busca de si mesmo, das raízes, para um comportamento tão “absurdo” de traição e ingratidão diante da Divina Bondade – em termos “inacianos”: reconhecimento de suas paixões desordenadas – mas também, e principalmente, busca por uma maneira de responder a este Amor. Amor que alcança seu cume na vinda prometida do Messias – Aquele que “Sendo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.” (Fl 2,6-8)

Tudo isto levando ao colóquio do primeiro exercício da Primeira Semana: “Imaginando a Cristo nosso Senhor diante de mim e pregado na cruz, fazer um colóquio: como de Criador veio a fazer-se homem, e de vida eterna a morte temporal, e assim a morrer por meus pecados. E, assim em colóquio, interrogar-me a mim mesmo: o que tenho feito por Cristo, o que faço por Cristo, o que devo fazer por Cristo; e vendo a Ele em tal estado e assim pendente na cruz, discorrer pelo que se me oferecer." [EE 53]