Santo Inácio descobriu este modo de conhecer a Deus através da leitura da Bíblia, da oração sem pressa, integrando a mente e o coração, aproximando a própria vida, sua história e seus sonhos, da História da Salvação, e bebendo da fonte inesgotável da Igreja.
Sabemos que a Bíblia é Palavra viva, mas nem sempre dedicamos atenção e tempo para deixar que seja de fato viva, gerando mais vida em nós mesmos. Santo Inácio, fazendo uso das diversas formas de rezar, percebeu que não basta “falar” com Deus, mas que é preciso aprender a “ouvir” a Deus.
Claro que “ouvir” a Deus requer certa aprendizagem, para reconhecer Seu modo de se comunicar, e só Ele mesmo pode possibilitar isso. De nossa parte, podemos tomar algumas iniciativas para nos dispormos e aprendermos a perceber, “na brisa suave”, Sua presença.
Santo Inácio começou a perceber certas mudanças interiores ao ler a vida de Jesus e a vida dos santos, pois, não apenas lia, mas deixava ecoar: ficava refletindo sobre a leitura. Fazendo uso de sua imaginação, recriava na mente o local, as pessoas, as conversas... tentava penetrar nas motivações, nos sentimentos, aproximando, assim, com as experiências pessoais que trazia para a oração, o relato bíblico de sua própria vida e ações.
Homem de grandes sonhos e ideais, reconheceu nos santos esta mesma busca, percebendo que estes não estavam servindo a um rei temporal, mas viviam a serviço do Rei Eterno, servindo aos outros; os santos não agiam em busca de honras e glórias para si mesmos, mas, por amor, queriam dar a conhecer a Deus, sendo Jesus Cristo o caminho.
Para ajudar outras pessoas a encontrar um caminho é preciso que o guia seja experiente, isto é, tenha percorrido várias vezes o caminho, saiba onde descansar e onde se abastecer durante a jornada, e também tenha experiência dos possíveis riscos e perigos. Santo Inácio perseverava na oração, na meditação e contemplação da vida de Jesus; era assíduo aos Sacramentos e atento às necessidades dos mais fragilizados da sociedade, ajudando-os como podia, dividindo o que obtinha de esmola, cuidando dos doentes, falando de Deus e de suas maravilhas, catequisando...
Inicialmente, sentia que Deus o tomava pela mão, como um mestre-escola com uma criança (cf. Autobiografia 27), e depois, crescendo no conhecimento interno do Senhor, percebeu que podia conversar como um amigo fala a outro [EE 54]. Longe de ser uma oração intimista, rezando, sentia crescer seu amor a Deus, e ao mesmo tempo crescia seu amor ao próximo. Todo estudo que empreendeu tinha como objetivo estar melhor preparado para poder evangelizar; toda conversa era oportunidade de crescer espiritualmente; todo relacionamento era ocasião de servir a Deus, servindo ao próximo.
Santo Inácio tinha o coração em Deus e os olhos no mundo: aprendeu com Jesus a fazer das situações cotidianas oportunidades de, pelo exemplo, conciliar as pessoas consigo mesmas e com Deus.
Jesus reuniu os apóstolos, ele se uniu com amigos no Senhor. Jesus percorria todas as aldeias e vilas... Santo Inácio, mesmo de Roma, atravessou mares e montanhas para evangelizar: seus companheiros foram suas pernas e seus braços, todos unidos pelo mesmo amor e ideal, manifestado na oblação de maior valor e estima, selado nos votos da “Mínima Companhia”.
Jesus foi incompreendido por muitos, também Inácio, e depois toda a Companhia de Jesus, mas Deus não abandonou Seu Filho, nem seus amigos. Rezar com os Evangelhos não é escolher apenas os trechos “gostosos”, mas é mergulhar na vida e história da relação de Deus com a humanidade, com suas riquezas e também suas misérias, com as alegrias e as dores, mas uma só promessa: “Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. (Mt 28,20)
A Bíblia é a Palavra de Deus concretamente no meio de nós! Todos os fiéis são chamados a beber desta fonte, sobretudo na celebração da Eucaristia e dos outros Sacramentos [...] A Palavra de Deus vem ao encontro da nossa sede de significado, de verdade sobre a nossa vida. Ela é a única Palavra sempre nova: revelando-nos o mistério de Deus, é inesgotável, nunca cessa de oferecer as suas riquezas1.
Santo Inácio bebeu desta fonte e nos incentiva a beber diariamente, através da oração pessoal, crescendo assim no conhecimento interno do Senhor, para em tudo, amar e servir [EE 233].
[1] Papa Leão XIV, Audiência Geral 11/2/2026