A leitura da Bíblia nos deve colocar em oração, em diálogo com Deus, acompanhando, com o coração e a mente, a história do povo escolhido e da salvação prometida. Ao rezarmos esta história, colocando-nos diante de Deus para contemplá-la, poderemos perceber que a história do povo escolhido não nos é estranha, ela se assemelha muito à história de vida de cada um de nós – se ela se estendesse por séculos e séculos. Somos escolhidos e chamados por Deus, no caminho tropeçamos, nos deixamos seduzir por aquilo que promete o que não pode entregar, nos desviamos do destino que buscamos e nos vemos perdidos, precisando de resgate e salvação.
E Deus não se esquece de nós, vem nos buscar e diz, como disse a seu povo: “Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão, e o produto do vosso trabalho com o que não pode satisfazer? Ouvi-me com toda atenção, e comei o que é bom; deleitar-vos-ei com manjares revigorantes. Escutai e vinde a mim; ouvi-me e vivereis. Farei convosco uma aliança eterna, assegurando-vos as graças prometidas a Davi.” (Is 55,2-3).
Mas, Deus ao cumprir sua promessa, o faz de maneira impensável: “Muitas vezes, e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho....” (Hb 1,1-2). “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial. E porque sois filhos, enviou Deus aos vossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai! (Gl 4,4-6).
Como não pasmar diante deste Deus que não só nos adota, como também nos dá sua mãe (cf. Jo 19,26-27), mãe que intercede junto ao Filho, como nas bodas de Caná, e diz a todos nós, simplesmente: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,3-5).
O que o Filho nos diz? Ele repete o convite, mas, agora, deixando muito mais explícita sua ternura: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso” (Mt 11,28). Queira Deus que diante deste Jesus, que nos chama de modo surpreendente, possamos experimentar o movimento de alma que faz brotar a pergunta urgente: “o que fiz, o que faço, o que farei por Cristo?”
Ora, só é possível responder esta pergunta, depois de termos respondido, com toda nossa inteligência, vontade e determinação, à pergunta que o próprio Jesus fez – e faz sempre a todos e cada um de nós, seus discípulos: "E vós, quem dizeis que eu sou?" (Mt 16,15b).
Não é possível responder com palavras a esta interpelação de Jesus: ela tem que ser vivida, ela tem que brotar do amor - que somente será possível e sincera, se e após experimentarmos mais intimidade com o Filho que se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1,14) e, como São João, pudermos dizer “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e o que nossas mãos apalparam do Verbo da vida...” (1Jo 1,1).
Tal conhecimento, tal intimidade com Jesus, é o que nos leva a amá-Lo, e deve brotar da contemplação de Sua vida, registrada na Sagrada Escritura, e do encontro pessoal com Ele, na oração. Contudo, Ele, que prometeu estar conosco todos os dias até o fim do mundo (cf. Mt 28,20), vem a nós em cada pessoa que encontramos e, se nosso amor por Jesus é real, deve se traduzir no amor a este próximo (cf. Mt 25,31-46). Desta forma, nossas ações, nossa vida, responderão à pergunta de Jesus: "E vós, quem dizeis que eu sou?" (Mt 16,15b).