O chamado que nos põe a caminho

No conto ‘O Príncipe e a Lavadeira’, de autoria de Nuno Tovar de Lemos, SJ, encontra-se uma bela metáfora que apresenta a Trindade profundamente implicada no projeto de redenção do gênero humano. Para que esse passo fosse dado e o Filho viesse habitar entre nós, seria necessária uma família que o acolhesse, oferecendo cuidados, segurança, ensinamentos, amor e que o enraizasse na cultura do povo no qual seria preparado para desempenhar sua missão salvífica.

No Evangelho segundo Lucas (1, 5-25), o evangelista apresenta Isabel e Zacarias como um casal justo diante de Deus, cumpridor fiel de todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Contudo, “não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e ambos eram de idade avançada” (Lc 1, 7). “Após conceber, Isabel permaneceu recolhida em casa durante cinco meses” (Lc 1, 24). No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus à Nazaré para Maria, uma jovem escolhida por Deus para ser a mãe do nosso Salvador.

A jovem Maria faz alguns questionamentos ao anjo e, no decorrer do diálogo, para confirmar a veracidade do anúncio, ele diz: “Eis que sua parenta Isabel também concebeu um filho na sua velhice. Este é o sexto mês daquela que era chamada estéril” (Lc 1,36). Diante de tudo que ouviu, Maria não mais titubeou e respondeu com inteira disponibilidade: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38).

Cheia do Espírito de Deus, Maria toma uma decisão que revela profundamente sua atitude interior: subir à montanha e ir ao encontro de Isabel e Zacarias. Intui que eles, certamente, necessitam de seus serviços e, ao mesmo tempo, reconhece que poderá aprender com a experiência deles diante do novo que se desvela em seu próprio momento de vida. Assim, “Maria partiu apressadamente para a região montanhosa, dirigindo-se a uma cidade da Judeia” (Lc 1, 39).

O servir, para Maria, não é adiamento da promessa recebida, mas o modo concreto de vivê-la. Movida pelo Espírito, ela compreende que amar e servir são inseparáveis e que é no encontro com o outro, na disponibilidade cotidiana e no cuidado, que o projeto de Deus vai ganhando carne, história e sentido.

Para rezar e refletir durante a semana:

Releia o texto bíblico Lc 1, 5-45 com o coração atento e os sentidos despertos. Escute, no silêncio, a pergunta que o Espírito sussurra:

A quem sou chamado(a), hoje, a “subir a montanha” para servir, deixando-me também transformar pelo encontro que nasce do amor em ação?